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Travessia dos Lençóis Maranhenses a Pé!

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Tudo o que você precisa saber para viver a experiência de aventura mais inesquecível dos Lençóis Maranhenses!

RESUMO

O presente relato descreve a incrível travessia dos grandes Lençóis Maranhenses, a qual foi realizada inteiramente a pé. Reserve de 5 a 9 dias para este passeio. Não existe trilha, então contrate um guia ou use um GPS se tiver experiência com o dispositivo. A distância percorrida depende da rota escolhida e varia de cerca de 65 a 77 km. Recomendo que não faça a travessia de oeste para leste, já que teria que andar todo o tempo contra o vento, que é bem forte nesta região. E lembre-se, a caminhada é toda feita sobre areia bem fofa o que dificulta o rendimento. Apesar da dificuldade, não deixe de ir! O cenário de dunas e lagoas é espetacularmente lindo!


ABSTRACT

This post presents the description of the incredible traverse of the Lençóis Maranhenses dune fields, which was carried out entirely on foot. Book 5 to 9 days for this tour. There is no trail, so hire a guide or use a GPS if you have experience with the device. The travelled distance depends on the route chosen and varies from about 65 to 77 km. I recommend that you do not make the crossing from west to east, since you would have to walk all the time against the wind, which is very strong in this region. And remember, the hiking is all done on soft sand which decreases the performance. Despite the difficulty, be sure to go! The scenery of dunes and lagoons is spectacularly beautiful!


ÍNDICE DO RELATO

INTRO

ROTEIRO

PROGRAMAÇÃO

QUANDO IR?

O QUE LEVAR PARA A TRAVESSIA?

GASTOS (POR PESSOA)

RELATO DA TRAVESSIA

DIA 1 – São Paulo -> São Luís

DIA 2 – São Luís -> Paturi

DIA 3 – Paturi ao Canto dos Atins

DIA 4 – Atins à Baixa Grande

DIA 5 – Baixa Grande aos Brito

DIA 6 – Queimada dos Brito à Betânia

DIA 7 – Dia de Sossego em Betânia

DIA 8 – Betânia a Santo Amaro

DIA 9 – Descanso em Santo Amaro

DIA 10 – Retorno à São Paulo


INTRO

Em setembro de 2010 meu irmão Ivan me chamou para conhecer o Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses juntamente com a Anna, sua namorada e minha amiga. Obviamente adorei a ideia e chamei para nos acompanhar dois amigos, Rebi e Sal, apelidados respectivamente de Vinícius e Lucas. Os dois também confirmaram presença e nos preparamos.

Nosso plano era atravessar os Lençóis Maranhenses inteiramente a pé do extremo leste para o extremo oeste (mais precisamente de ENE-WSW), passando pelos dois oásis salvadores que existem no meio do deserto de dunas.

Este sentido de caminhada é praticamente obrigatório a não ser que esteja procurando sofrimento. Isto porque os ventos sopram de leste para oeste e andar contra eles por mais de 60 km seria deveras desgastante, sem contar na quantidade de areia que você comeria se optasse por tal direção. Além disso, você necessitaria subir pela frente das dunas (lado bem mais inclinado da duna em que a areia é consideravelmente mais fofa), que podem chegar a mais de 40 metros de altura, e acredite, não vais querer este tipo de desafio.

Outra dificuldade deste passeio é o terreno. Não sei se você já experienciou caminhar por 12 horas numa superfície de areia fofa. O rendimento não é o mesmo que em uma trilha normal onde a velocidade pode atingir 5 km/h. Aqui se caminha em média a 2 ou 3 km/h.

Confira nas figuras abaixo o mapa da travessia e o roteiro completo do passeio, respectivamente. Ambas as imagens foram retiradas do Google Earth.

Roteiro da travessia a pé
Roteiro da travessia a pé
Roteiro completo do passeio
Roteiro completo do passeio

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ROTEIRO

1º DIA – 03/09/2010:

  • Ida ao Aeroporto em São Paulo para pegar o vôo madrugueiro

2º DIA – 04/09/2010:

  • Vôo São Paulo à São Luís do Maranhão
  • Táxi Aeroporto até a Rodoviária de São Luís
  • Ônibus São Luís à Barreirinhas
  • Barco Barreirinhas até o Povoado dos Atins (Pousada do Paturi), passando por Vassouras e pelo Farol de Mandacaru

3º DIA – 05/09/2010:

  • Passeio por praias próximas ao Paturi e pelo Rio Preguiças e volta ao Paturi
  • Partida para os Atins incluindo a atravessada do Rio Preguiças de barco
  • 5,5 km de caminhada do Atins até a Casa do Antônio no Canto dos Atins

4º DIA – 06/09/2010:

  • 26 km de caminhada – Canto dos Atins -> Oásis Baixa Grande (casa da Dona Dete)

5º DIA – 07/09/2010:

  • 10 km de caminhada de Baixa Grande até o segundo oásis na Queimada dos Brito (casa da Maria)

6º DIA – 08/09/2010:

  • Curtimos dunas e lagoas próximas da Queimada dos Brito e voltamos para a casa da Maria, que totalizou 6 km de caminhada
  • 19 km de deslocamento Queimada dos Brito até o povoado de Betânia

7º DIA – 09/09/2010:

  • Dia de molho nas lagoas no entorno do povoado de Betânia (Casa da Dona Maria das Chagas)

8º DIA – 10/09/2010:

  • 14 km de caminhada até Santo Amaro do Maranhão
  • Estadia na casa da Dona Adna

9º DIA – 11/09/2010:

  • Dia de descanso nos arredores de Santo Amaro no Rio Grande
  • Estadia na casa da Dona Adna

10º DIA – 12/09/2010:

  • Deslocamento Santo Amaro -> Povoado Sangue -> São Luís
  • Volta pelo centro histórico de São Luís
  • Ida ao aeroporto e regresso para São Paulo

Total Travessia Atins -> Santo Amaro: 65 km (por Betânia: 77 km)
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PROGRAMAÇÃO

Se preparar para esta viagem é bem simples. Tudo que necessitas é comprar a passagem de avião para São Luís do Maranhão (Compramos o vôo de São Paulo para São Luís por R$ 680,00 ida e volta) e conciliá-la com os horários de ônibus para Barreirinhas.

Tente pegar um vôo madrugueiro que chegue em São Luís antes das 5:00 para que assim possa pegar o ônibus das 6:00 para Barreirinhas. Se preferir há o ônibus das 8:45, mas se você perder este aí o próximo só parte as 14 h e terá que dormir em Barreirinhas.

O trajeto São Luís -> Barreirinhas é realizado pela Viação Cisne Branco. Recomendo que cheque alguma possível mudança de horários aqui.

Outra coisa que precisa fazer é sacar um bom dinheiro pois haverá muitas coisas a pagar no ato. Mais adiante apresentarei um resumo dos gastos totais desta viagem.

Por fim, uma recomendação importante é que faça o uso de um GPS ou de algum aplicativo de celular que possibilite a visualização de trilhas, visto que há um grande risco de se perder no desertão maranhense. O tracklog da travessia se encontra em:

http://pt.wikiloc.com/wikiloc/view.do?id=15252284

Quando nós 5 fomos não tínhamos um tracklog para seguir, apenas os pontos dos dois oásis que se situam no meio dos lençóis (o Oásis Baixa Grande e a Queimada dos Brito) e a cidade de Santo Amaro do Maranhão.

Todos sabem que as dunas se movimentam diariamente, portanto o mais importante no tracklog são os pontos marcados mesmo, mas não custa levar um percurso completo para possuir mais referências (baixe o tracklog acima :)).

Caso não tenha um GPS ou tenha e não saiba usar, aconselho a contratação de um guia em Barreirinhas. Mas recomendo muito que faça esse passeio a pé (contanto que tenha condições físicas, claro), pois não há sensação igual a caminhar por horas e horas naquele mar de areia… sério, é surreal.

Contatos de alguns guias:

  • Ribeiro: (98) 99617-1708
  • Fabrício: (98) 98897-9178
  • Carlos Queimada: (98) 98734-0615
  • Joel: (98) 98881-6538

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QUANDO IR?

Um fator importante para a preparação desta viagem é escolher bem a época do ano para ir (assim como a maioria das viagens que dependem da natureza).

Como o calor nos lençóis é constante o ano todo, o pessoal da região diferencia as estações do ano em duas: o inverno é a época de chuvas, de janeiro a julho, e o verão é a época de seca, de agosto a dezembro. Lembre-se disso quando for conversar com algum local sobre as estações do ano.

A vantagem da época de chuvas é que as lagoas estarão todas cheias de água, o que deve tornar o cenário ainda mais espetacular. Nós fomos em época de seca e o fato de termos encontrado várias lagoas secas encurtou em muito o nosso caminho, pois não era necessário contornar todas as lagoas que apareciam. Mas não se preocupe, pois a beleza do lugar na época de seca também é surreal, pois muitas lagoas são perenes e deslumbrantes o ano todo.

Veja abaixo a comparação do volume das lagoas em um intervalo de 2 anos segundo imagem de satélite extraída do Google Earth, sendo a imagem da direita tirada no mês de julho/2011 e a da esquerda em outubro/2013. Destaque para a diferença da Lagoa Verde indicada em azul.

Variação do Nível das Lagoas
Variação do Nível das Lagoas

Outra recomendação essencial é optar por ir na fase da lua cheia. Infelizmente fomos na lua nova, mas li e ouvi que na lua cheia a iluminação durante a noite é tão forte e a areia é tão branquinha, que o reflexo da luz da lua na areia torna a navegação totalmente viável durante a noite!! Se um dia eu voltar farei questão de caminhar sob as noites de lua cheia 🙂

Falando em lua, eu fiz uma descoberta esquisita que espero não ser óbvia. Qual o único feriado de 5 dias do ano (tempo mínimo pra realizar a travessia)? O Carnaval certo? Pois é. Todo ano o carnaval cai na lua nova… Portanto faça essa trip nas férias ou no recesso de fim de ano.

PS.: Não importa em que época do ano decida ir, mas não esqueça de levar calça e camiseta de manga comprida e protetor solar. O vento nos Lençóis é tanto que você não sentirá um calor excessivo, o que ajuda para não superaquecer durante a caminhada. Porém, lembre-se que a região está situada próxima à Linha do Equador e que a incidência solar é extremamente forte. Eu me ferrei nessa como poderá ver no relato.

OBS.: o site do ICMBio apresenta fotos do nível das lagoas ao longo das estações do ano. Acesse o link aqui.

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O QUE LEVAR PARA?

  • Mochila semi-cargueira. De preferência uma boa, porém não nova. Você tirará areia dela por uns 2 anos após esta viagem 🙂
  • Kit de Primeiros Socorros
  • Protetor Solar (Fator 1000)
  • 1 Calça leve
  • 2 Camisetas de manga comprida
  • 1 Óculos escuros
  • 1 Roupa de banho (sunga, biquíni, bermuda)
  • 1 Chapéu ou boné ou bandana ou camiseta para amarrar na cabeça
  • Comida para trilha. Apesar de termos encontrado lugares para jantar, leve rango para almoço e uns snacks
  • Purificador para água das Lagoas (Clor-in, Hidrosteril). Leve garrafas vazias
  • 1 GPS
  • 1 Câmera fotográfica
  • E claro, o calçado. Seguem opções:
  • Botas: Foi minha escolha mas não recomendo pois entra muita areia e é meio chato tirá-la o tempo todo. Mas também não é o fim do mundo…
  • Tênis: Escolha padrão. Acho que não tem muito o que dar errado apesar que também entra bastante areia.
  • Papete: Use com meias. A combinação é feia, mas é bem mais confortável. Não fui assim mas vi recomendações de que era uma boa opção.
  • Meias: Quando seu pé estiver com bolhas ou quando você estiver de saco cheio de tirar areia do tênis/bota, experimente andar de meias. Foi a escolha do meu irmão um dia e ele disse que compensa.

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GASTOS POR PESSOA (2010)

  • Passagem aérea = R$ 680,00
  • Ônibus Barreirinhas = R$ 15,00
  • Barco Barreirinhas -> Paturi = R$ 25,00 para os 5 = R$ 5,00
  • 1x Hospedagem e 2x Refeições no Paturi = R$ 90,00
  • 1x Hospedagem e Jantar Canto dos Atins = R$ 40,00
  • 1x Hospedagem + jantar Baixa Grande = R$ 45,00
  • 1x Hospedagem + jantar Queimada dos Brito = R$ 35,00
  • Guia Queimada dos Brito -> Betânia = R$ 50,00 para os 5 = R$ 10,00
  • 2x noites Hospedagem + 2x jantares Betânia = R$ 70,00
  • 2x noites Hospedagem Santo Amaro do Maranhão = R$ 60,00
  • Refeições Santo Amaro = R$ 35,00
  • Ônibus Santo Amaro – > Sangue = R$ 5,00
  • Ônibus Sangue -> São Luís = R$ 10,00

GASTOS TOTAIS POR PESSOA (2010) = R$ 1.100,00

Ok, agora que você já sabe tudo o que precisa continue lendo para que possa experimentar a sensação maravilhosa de estar lá através do meu relato a seguir!
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RELATO DA TRAVESSIA

Fomos com folga. A viagem toda foi realizada entre os dias 03 a 12/09/2010. Estes 9 dias foram mais do que suficiente para conhecer o parque com bastante calma. E ainda por cima paramos para descansar e desfrutar por dois dias. Se você não tiver 9 dias é possível fazer a travessia em 5 dias, sendo um dia para ir, 3 caminhando e um para a volta. Fica corrido mas é possível. Vamos lá!


DIA 1 – São Paulo -> São Luís

Este dia foi apenas viagem a noite.

Era uma sexta-feira normal. Trabalhei, fui pra casa, peguei minhas coisas, encontrei o pessoal e partimos para o Aeroporto de Guarulhos.

O Vôo de São Paulo saiu à 00:45 e chegamos no Aeroporto Internacional de São Luís na madrugada do dia 04, por volta das 4h.

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DIA 2 – São Luís -> Paturi

Fizemos um tempo no aeroporto e às 05:00 pegamos um taxi para o Terminal Rodoviário que fica a 3,5 km do aeroporto.

Tomamos café e compramos as passagens de ônibus para Barreirinhas com a empresa Cisne Branco para o horário das 6:00. A viagem para Barreirinhas dura cerca de 4 horas em um percurso de aproximadamente 250 km.

Assim que chegamos em Barreirinhas já fomos atrás de uma voadeira para percorrer o Rio Preguiças de sul para norte e nos deixar nos Atins ou em algum lugar próximo.

Rio Preguiças
Eu e as mochilas na voadeira no Rio Preguiças

O passeio de barco até o Pousada do Paturi, onde passamos a primeira noite, fica a cerca de 1 hora de Barreirinhas.

Mas antes paramos no mini povoado de Vassouras e no Farol de Mandacaru (ou Preguiças).

Em Vassouras existem algumas cabanas de apoio a turistas. Na proximidade do local há belíssimas dunas que iniciam na Praia de Caburé e terminam no Rio Preguiças, caracterizando os Pequenos Lençóis. Só uma amostra do que contemplaríamos nesta viagem 🙂

Ainda encontramos uma variedade de animais aqui em Vassouras, desde macacos abrindo cocos a quatis sociáveis e araras simpáticas.

Voltamos para o barco e seguimos para o belo Farol de Mandacaru no povoado de Mancadaru, para só então seguir em direção ao Paturi, famosa pousada situada entre o Rio Preguiças e a Praia de Caburé.

Se você preferir pode ir direto até o Canto dos Atins para iniciar a Travessia dos Lençóis no dia seguinte, mas como tínhamos dias extras resolvemos pousar no Paturi esta noite.

O Seu Paturi é super gente boa e as pessoas que ali atendem também. Ficamos super bem hospedados nesta primeira noite.
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DIA 3 – Paturi ao Canto dos Atins

Neste segundo dia fizemos um passeio tranquilo nas proximidades da Pousada do Paturi.

Andamos pela Praia de Caburé e seguimos até o encontro com o Rio Preguiças para norte. A praia é bonita, mas não possui grandes diferenciais.

Praia de Caburé
Anna, Rebi, Sal e eu na Praia de Caburé

Passamos a tarde tomando um banho de rio e depois voltamos para o Paturi.

Este dia não passei protetor solar direito e fiquei parecendo um imbecil cheio de manchas vermelhas aleatórias pelo corpo haha. Não faça o mesmo e como recomendei nos itens essenciais, sempre use camiseta de manga comprida e calça.

Almoçamos na Pousada do Paturi e não pudemos deixar de experimentar o Guaraná Jesus. Não darei opinião sobre o sabor, apenas prove se ainda nunca provou heheh.

Fizemos as malas e partimos rumo ao Canto dos Atins.

Atravessamos o Rio Preguiças de barco, o qual nos deixou direto nos Atins.

A vila dos Atins é bem simpática e possui bom apoio para o turista também, mas fomos direto para o Canto dos Atins, que dista 5,5 km dos Atins. Nosso destino final seria a casa do Antonio, que fica bem no pé dos Lençóis e é o melhor lugar para iniciar a travessia.

Recomendo a estadia aqui e não esqueça de pedir um camarão na janta. É um absurdo. Melhor da vida.

Fomos dormir então com aquela ansiedade do que seria o início da famigerada travessia dos Lençóis Maranhenses.
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DIA 4 – Atins à Baixa Grande

Primeiro e mais incrível dia da travessia, mas não porque era o mais bonito e sim porque foi o dia da descoberta e de maior imersão nos Lençóis Maranhenses. Marcou o início do que seria uma semana de intensa contemplação e admiração.

Há duas maneiras de se deslocar do Canto dos Atins para o Oásis Baixa Grande:

  • Modo prudente: Do Canto dos Atins ande até a Praia de Lençóis e siga nela por 14 km até encontrar um rio. Agora suba acompanhando o rio e caminhe 5 km até encontrar o Oásis Baixa Grande.
  • Modo que escolhemos: seguir o ponto de GPS, traçar uma linha reta e seguir todavida.

Bora então 🙂

Saímos muito cedo, umas 4 h. Ainda havia um resquício de lua minguante, mas era o último dia antes da lua nova :/

Na casa do Antonio havia dois cachorrinhos que resolveram nos seguir, o que é normal em viagens de aventura. Porém não imaginávamos o quão longe eles iriam com a gente. Tentamos afugentá-los, mas eles não se intimidaram.

Seguimos então com companhia.

Pequenos dogs parceiros
Pequenos dogs parceiros

Antes de seguir cegamente o ponto de GPS, o Antonio nos informou as direções para encontrar a Lagoa Verde, um dos pontos turísticos da região. “Bastava” seguir pela praia, pegar a esquerda depois de duas tendas abandonadas e continuar reto.

De fato, há algumas tendas, mas não tínhamos certeza onde exatamente deveríamos mudar de direção.

Após o que seria a segunda cabana, a 5,5 km da casa do Antonio, viramos à esquerda e tornamos a andar, mas foi uma sensação estranha pois seria nosso primeiro contato com aquele desertão e não tínhamos muita fé que encontraríamos algum ponto específico.

 

Início da travessia
Eu e os doguitos no início da travessia

Andávamos e andávamos sem muita esperança de encontrar a Lagoa Verde pois quase todas lagoas estavam secas ou com pouca água.

Entretanto, após 3,5 km caminhados, quando já havíamos desistido e pensado em tornar a seguir o GPS, surgiu a fantástica e deslumbrante e perene e imensa lagoa de 1 km por 300 m!!

Lagoa Verde
Lagoa Verde e turistas banhando

Como estávamos sem guia não sabíamos se era realmente a Lagoa Verde, porém alguns minutos mais tarde encontramos algumas pessoas chegando próximo a uma bandeirinha que há no local, então tivemos certeza que ali de fato era um ponto turístico.

Seriam os penúltimos turistas que encontraríamos em toda a viagem.

A Lagoa Verde é um absurdo. Está com certeza entre as mais bonitas do deserto maranhense.

Ficamos cerca de 1 hora curtindo e retomamos a caminhada.

Quando partimos da lagoa agora nossa referência não eram tendas e nem a lagoa, agora seguiríamos apenas o ponto de GPS que pegamos na internet, o qual mostrava a localização – esperávamos que exata – do Oásis Baixa Grande.

Agora o cenário se tornou surreal e o mar eterno de dunas era assustador e excitante. Diferente de qualquer coisa que já tinha presenciado!

Mar de dunas
Anna, eu, Sal, Rebi e dogs no mar de dunas

Esta situação assustou o Rebi e o Sal que sugeriram que continuássemos pela praia por ser mais garantido.

Apesar de ser uma ideia prudente eu estava ali para conhecer os Lençóis juntamente com suas dunas e lagoas e não para ir pela praia. Vale ressaltar que esta praia não é exatamente a mais atraente do Nordeste.

Porém, para minha imensa alegria, o Ivan e a Anna também estavam comigo e queriam cortar pelo meio do deserto. 3 a 2 e continuamos a seguir somente o GPS.

E fomos e prosseguimos naquela imensidão de areia mais linda, sempre acompanhados dos doguitos do Antônio!

Sério, esse dia foi muito deslumbrante. A gente ás vezes parava e olhava pra todos os lados e nos víamos perdidos naquele deserto. É uma sensação sem igual que imagino que só quem faz a travessia a pé consegue sentir.

Linda lagoa e areia branquinha
Rebi, Ivan, dogs e linda lagoa

Após 11 km de infindáveis sobes e desces de dunas e contornos de diversas lagoas encantadoras paramos para comer uns snacks.

Rebi de boa
Rebi relaxando

Depois de 20 km nos acompanhando, os dois cachorrinhos pararam de nos seguir e deitaram na areia. Ficamos um tempão tentando convencê-los a nos acompanhar, mas não teve jeito. Eles ficaram e prosseguimos com uma tristeza no coração, mas sabendo que eles eram espertos o suficiente para regressar… ao menos esperávamos por isso.

Tchau dogs :/
Momento em que os dogs nos abandonaram

Bom, tínhamos que continuar. O dia já estava acabando e estávamos exaustos.

Por fim, após 5 km já avistávamos porções vegetadas, o que seria a entrada do Oásis Baixa Grande.

Apenas 1 km nos separava da casa da Dona Dete, porém ainda demoramos pra chegar. Na entrada do oásis havia inúmeros caminhos de cabra bem confusos, o que nos fez perder quase uma hora pra achar a Dete. Volto a frisar, leve um GPS. Depois de muito desgaste chegamos às 18:00 na casa dela com o dia já escurecendo.

Oásis
Chegada no oásis no meio dos Lençóis

A Dete nos tratou super bem e ofereceu redes a R$ 20,00 por pessoa. As redes ficam dentro de uma cabana fechada.

Há uma bomba para extrair água do lençol freático, porém ela fica situada ao lado do banheiro e tem um gostinho peculiar de merda HAHAH.

Ela perguntou se queríamos jantar e nos preparou duas galinhas magras e muito saborosas. Para nossa surpresa ela cobrou R$ 120,00 pelas duas galinhas, mas não dá para culpá-la. Imagina o trabalho pra se deslocar pelos Lençóis com dois frangos…

Abrigo no Oásis Baixa Grande
Abrigo no Oásis Baixa Grande

E então fomos nos preparar para dormir. Este foi de fato um dia espetacular que nos propiciou novas e incríveis experiências.

Mas o desfecho foi com uma má notícia. O Antônio ligou pra Dete (sim, ela tem um telefone por antena!) e perguntou se os cachorrinhos tinham nos acompanhado porque já era tarde e eles não tinham voltado.

Fomos dormir chateados…
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DIA 5 – Baixa Grande aos Brito

E acordamos felizes. O Antônio ligou dizendo que os danados conseguiram voltar!!

Este segundo dia da travessia dia a caminhada seria mais curta. Pudemos descansar um pouco e então saímos mais tarde. Tínhamos que percorrer 10 km para chegar no Oásis Queimada dos Brito e não 26 km como no dia anterior.

E ainda bem que foi mais curta, porque o Ivan passou mal com a galinha da Dete e estava seguindo adiante com dificuldade.

Fomos sem pressa e prosseguimos no mesmo lindo cenário de lagoas e dunas espetaculares.

Família nos Lençóis
Meu bro Ivan e eu

Após os 10 km chegamos na Queimada dos Brito já no fim da tarde.

Na Baixa Grande somente vive a Dete e sua família, porém a Queimada dos Britos e dos Paulo possuem inúmeras casas e inclusive uma escola. São verdadeiros povoados situados no meio dos Lençóis.

Deve estar se perguntando como diabos tem dois oásis dentro dos Lençóis?

Os oásis são porções com vegetação de restinga remanescentes no meio do grande campo de dunas. Os locais dizem que anteriormente os dois oásis eram conectados.

Nos Brito nos hospedamos na Casa da Maria, que também nos recebeu bem e ofereceu redes e um jantar de traíra frita.

Ela mal terminou de servir a mesa e uma barata marota surgiu e pulou no arroz. A Maria deu um tapa na barata que voou no meu peito e meu irmão matou ela em mim.

Como estávamos no meio do nada pensamos “ah, esta baratinha nem é suja. Estamos no meio da natureza dos Lençóis” e rangamos com toda a alegria do mundo. Mais tarde descobrimos que o banheiro possuía centenas de baratas nadando na bosta 🙂

E fomos dormir.

Redes confortáveis
Eu, Sal e Anna nas redes da casa da Maria

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DIA 6 – Dos Brito à Betânia

Este terceiro dia da travessia foi o cúmulo do despreparo.

Acordamos e estávamos na dúvida se ficaríamos mais uma noite nos Brito, se íamos direto pra Santo Amaro do Maranhão ou se partiríamos para o povoado de Betânia, situado na borda SW dos Lençóis.

Se quiser fazer a travessia em 3 dias vá para Santo Amaro. Mas nós ainda tínhamos tempo então resolvemos conhecer a região com calma.

Na casa da Maria estavam algumas crianças e o Seu Lutrido, um local mirrado, quietinho e gente boa.

Casinha
Casa da Maria na Queimada dos Brito

A primeira metade do dia foi incrível. Primeiramente, o Tico, um menino local, deu uma guiada para a gente e nos levou por 3km sentido NE até uma lindíssima lagoa, num local com as dunas mais altas que encontramos na travessia.

A lagoa é de um azul cristalino incrível, assim como várias lagoas que encontramos nos Lençóis.

Dia lindo nos Lençóis
Ivanzão contemplando o visual

Uma feição interessante desta lagoa é que há uma prainha com areia movediça. Dá pra afundar até as coxas hehe.

Demos aquela relaxada e regressamos para a casa da Maria ainda indagando o que faríamos neste dia.

Aí que veio nosso vacilo…

Já passava das 13:00 quando o Seu Lutrido se ofereceu para nos levar até o povoado Betânia por R$ 50,00. Ele disse que daria pra fazer este trecho em 3 horas… pois é… só que ele esqueceu que ele nasceu ali e nós éramos turistas comuns. Pra piorar com chave de ouro, não havíamos almoçado neste dia. Resultado: leia a seguir a aventura.

Nos arrumamos, comemos umas bolachas água e sal (super refeição!) e partimos às 14 horas. Não faça como a gente e leve comida para situações como essa.

Andamos 2 km até chegar na Queimada dos Paulo e mais 1 km até sair do grande oásis. Agora só precisávamos andar 16 km nas dunas até Betânia.

DEZESSEIS!!

Já passava das 14:30. Faça a conta. No primeiro dia percorremos 26 km e saímos às 4:00 pra chegar às 18:00 na Dete. Tudo bem, descontando as paradas poderíamos fazer em menos que 14 horas, mas estávamos aqui para curtir e não atravessar o deserto correndo…

Se soubéssemos que era tão longe certamente teríamos ficado mais uma noite na Maria. Mas o Seu Lutrido falou que eram 3 horas, então vamo lá.

No início foi só alegria e o lindo mar de dunas se revelava para a gente novamente.

Porém, em poucos instantes o sol já dava pinta que iria abaixar. Apesar de dar uma tonalidade especial para o ambiente, já começávamos a perceber que não atingiríamos Betânia com luz e que não iríamos conseguir aproveitar as lindas lagoas que víamos no caminho.

O Seu Lutrido anda demais e mal conseguíamos acompanhá-lo. Aliás, neste momento, a distância que cada um de nós dava do outro era imensa e nem conversávamos. Apenas cada um concentrava no seu próprio passo torcendo para que o povoado chegasse logo.

demais
Esse dia foi loco…

E como não tínhamos comido direito, não estávamos em condição de imprimir um ritmo forte.

Já esgotado, lembro bem como parei de sentir as pernas ao final deste longo dia. Foi bizarro. Cheguei num estado que se eu parasse ia ser difícil retomar… Fui só no modo zumbi.

O dia se foi e a noite chegou. Andamos por muito tempo no escuro, algo não recomendável nos Lençóis. Ao menos o Seu Lutrido não desistiu da gente.

Finalmente, após 5 horas de caminhada (não 3) e após quase uma hora no escuro chegamos no povoado de Betânia ás 19h.

Tomamos uma soda que desceu redondaça, batemos um bifão maravilhoso e fomos dormir nas nossas redinhas.
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DIA 7 – Sossego em Betânia

O que esperar de um dia pós stress/desgaste máximo?

Descanso é claro.

Porém um galo locaço deu uma atrapalhada na tentativa de termos um dia 100% zen. Ele começou a cantar na madruga de uma maneira esdrúxula.

Mas tudo bem.

Passamos o dia todo de molho numa lagoa beeeem relaxante, a qual possuía uma imensa árvore na sua margem fazendo sombra e um banquinho embaixo. Super bucólico.

Lagoa em Betânia
Anna, eu, Sal e Rebi no relax

Foi essencial pra prosseguirmos com saúde para o último dia da travessia.

Neste dia jantamos um bode demais. Vale a pena explorar a variedade gastronômica da região.
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DIA 8 – Betânia a Santo Amaro

Após acordar novamente com o galo estridente fizemos as malas e tornamos a andar sentido Santo Amaro do Maranhão. Este seria o quarto e último dia da grande travessia dos Lençóis Maranhenses.

Para sair do povoado é necessário atravessar o Rio Grande de barco então pagamos R$ 10,00 para um local fazer nossa travessia.

De volta para os Lençóis e agora alimentados e bem descansados, tornamos a caminhar.

Felizmente, saímos cedo e conseguimos aproveitar muito bem as lagoas deste dia, que também não deixaram a desejar.

Lagoinha linda
Sal, Rebi, eu, Anna e linda lagoa

Não vou dizer mais nada sobre as lagoas e as dunas que pode parecer repetitivo. Mas o cenário simplesmente não enjoa. A cada nova lagoa uma nova impressão.

Pois bem. Após 11 km andando na areia surge uma vegetação de restinga generosa e sabíamos então que tínhamos chegado ao fim da fabulosa grande travessia dos Lençóis Maranhenses.

Tchau Lençóis :/
Eu, Rebi e Sal visualizando o fim dos Lençóis

E foi neste ponto que encontramos os últimos turistas da trip. Era um casal de locões que pretendiam fazer a travessia de Oeste para Leste, ou seja, comendo areia. Mas eles pareciam estar meio perdidos. Espero que tenham conseguido atravessar os Lençóis.

Bom, pra finalizar, em menos de 1 km chegamos na cidade de Santo Amaro do Maranhão. Andamos mais 2 km até o centro onde ficamos na hospedaria da Dona Adna, uma senhora muito gente boa que nos forneceu um quarto bem confortável. Chega de redes hahah

Santo Amaro tem 15.000 habitantes e possui boa estrutura para turistas.

Almoçamos/jantamos um bode no coco, uma peixada e um peixe frito no restaurante Lúcia por volta das 18:00. Depois ainda fomos dar um banho no Rio Grande, rio que atravessa a cidade, onde contemplamos um belo pôr-do-sol.
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DIA 9 – Dia em Santo Amaro

Utilizamos o último dia antes do retorno a São Paulo para relaxar também.

Fizemos um passeio no Rio Grande. Como queríamos mais sossego nos afastamos um pouco de Santo Amaro até uma porção mais tranquila do rio e fomos até a Barreira das Pacas.

Rio Grande
Rio Grande

Entretanto, nosso relaxamento não foi completo porque nas águas deste rio há um besouro aquático do mal que morde doído demais. Era impressionante a dor hahaha

Voltamos pra casa da Dona Adna, assistimos Motoqueiro Fantasma e jantamos um camarão da malásia.

Para completar o desfecho do dia decidimos ir numa balada de tecno brega, que é o som que rula na região. Pagamos R$ 2,00 para entrar na casa chamada Playboy Club e foi uma experiência curiosa. Uma das paredes da balada era só de cornetas, então o som era muito muito alto, porém de má qualidade.

Bom, não ficamos tanto tempo assim e já voltamos pra casa da Dona Adna para nossa última noite de sono no Maranhão.
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DIA 10 – Retorno à São Paulo

Enfim chegou o dia do regresso pra casa, infelizmente.

Fizemos as malas e partimos para a caminhonete que nos levaria até o povoado de Sangue, que fica a cerca de 30 km a sul de Santo Amaro.

Sangue fica na rodovia que liga São Luís de Barreirinhas e, portanto, daqui pegamos o ônibus para São Luís.

Chegamos na capital maranhense por volta do meio-dia. Fizemos um passeio a pé pelo centro histórico e almoçamos uma comida típica no restaurante Crioula’s.

Nesta hora veio um policial dizendo que ali não era seguro para turistas e então logo vazamos e fomos para o aeroporto (sim, nem de dia é seguro nas ruas do centro de São Luís).

Enfim partimos para o aeroporto.

Pegamos o avião com conexão em Brasília e quase perdemos o segundo vôo porque fomos almoçar e o pedido estava demorando hehe.

E essa foi a trip da gloriosa Travessia a Pé dos Lençóis Maranhenses.

Uma experiência inigualável.

É preciso presenciar uma vez na vida o cenário absurdamente insano que a natureza aqui revela e conhecer a cultura da região que é tão simples e tão rica ao mesmo tempo.

Obrigado pela leitura!

Beijos e abraços!

Timê!
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